quarta-feira, 16 de abril de 2025

A docência...

 Eu costumava pensar diferente como professor até alguns anos atrás...


Como alguns sabem, minha formação original é em Física. Cursei "Licenciatura em Física" entre 2006 e 2010 na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Tive professores incríveis, mas também tive aqueles complicados de lidar. Tive colegas de curso que levo como amigos até hoje e também tive aqueles que ou desistiram do curso nas fases iniciais, ou perdi contato não intencionalmente. Como falo para meus alunos e colegas hoje: quem faz o curso é o aluno (e isso tem várias interpretações possíveis) e, no sentido de percorrer a trilha de aprendizados e formação, digo que foi um curso muito bom, pois me dediquei tudo que era possível dadas as circunstâncias.

Durante a graduação atuei como monitor de disciplina de matemática e, na sequência, como docente da disciplina de matemática para turmas do Ensino Fundamental II (do 6º ao 9º ano) em uma escola privada em Florianópolis. Posso dizer - e sempre digo - que essa foi minha verdadeira escola da docência. Foi lá que desenvolvi meus métodos, que tive oportunidade de desenvolver ferramentas para auxiliar professores e alunos, que aprendi a lidar com alunos que nem sempre estão ali com vontade de estar ali. Mas eu ainda acreditava que podia mudar a vontade do aluno - sempre fui idealista em termos de educação...

Depois de dois anos fora da sala de aula por conta do mestrado, retornei à atividade docente em 2012. Dessa vez em Criciúma, assumi como professor de diversas disciplinas dos cursos de graduação de engenharia de uma universidade da cidade e, também, de uma escola privada, também do mesmo município. Praticamente ao longo de todo o tempo e até hoje, lecionei e ainda leciono na universidade em questão, mas ao longo dos anos, paralelamente à graduação, atuei em diversas escolas e cursos pré-vestibular da cidade. Meu negócio sempre foi lecionar, explicar física.

Sou docente de física daqueles que seguem a linha de solução de problemas de avaliações e livros textos. Não sou um professor da área experimental, mesmo que tenha lecionado disciplinas experimentais na universidade - não me sinto à vontade. Gosto de tentar desenvolvimento o raciocínio lógico por meio de letras, números e símbolos. Mesmo que grande parte dos problemas de física encontrados nas provas de vestibular e livros textos assumam condições absurdas nas situações problema, o conceito sempre pode ser trabalhado utilizando abstração - que também é algo muito importante no desenvolvimento do raciocínio lógico.


Hoje, dentro do mundo da docência - em todos os níveis - nós docentes enfrentamos uma pergunta doentia originária do imediatismo que o mundo atual nos trouxe: "Para que vou utilizar isso?". Quando pior, os alunos nos indagam - às vezes até com certa braveza - "Nunca vou utilizar isso para nada." e citam o teorema de pitágoras ou a fórmula de Bháskara como exemplos. Ao meu ver, o errado não é a evolução do mundo e nem o imediatismo. O digital agilizou muita coisa e tornou muita coisa muito mais imediata que antigamente. Da mesma forma, tornou muitos procedimentos comuns da vida moderna muito mais "diretos ao ponto" e "focados no objetivo", fazendo com que, muitas vezes, a viagem se torne menos importante que o destino. Temos sim que, aproveitar dos benefícios do mundo moderno, mas nós, assim como os nossos alunos, estamos perdendo a oportunidade de realmente entender o que se passe em prol do fazer, entregar e saber usar, sem muito pensar.

A reflexão é esta... Ser docente hoje em dia, em um mundo de IAs, LLMs, onde todo o conhecimento se encontra disponível e acessível a todos, é tentar encontrar uma forma de fazer com que os alunos desacelerem e desfrutem do pequeno momento de pensamento, de raciocínio, de fazer conscientemente. O mundo continuará acelerado lá fora e não temos nada o que fazer contra isso e nem devemos, como docentes, tentar. E eu, olhando aquele professor conteudista e metódico de uns anos atrás, vejo como mudei. Se para melhor ou para pior não sei, mas sei que não sou o saudosista que continua jogando a culpa da falta de capacidade atual de nossos alunos no sistema de ensino ou professores de fases anteriores. E também não atribuo mais a culpa daquilo que eu julgava ser despreparo do aluno ao mundo imediatista - pelo contrário, preciso e tento surfar a onda, mas com as rédias na mão.

Doa a quem doer... você, meu caro professor, precisa parar e repensar o que é lecionar no mundo atual.

"Há braços"


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